Hoje a saga chega ao fim. Muita coisa não importa mais agora. Não há mais muito tempo para re-análises, conjecturas, novas teorias, nem pra voltar naquele episódio perdido da temporada tal onde voce jura que há um significado oculto numa frase que foi dita por alguem e que agora vai fazer todo o sentido.
Não, não há mais tempo. O que está feito, está feito.
Lost chega ao final da sua jornada de 6 anos e nós também. Nós que nos aprendemos neste tempo a amar a série, a cultua-la e torna-la não só um simples entretenimento, mas uma filosofia. Nunca houve antes em nossas vidas uma obra que nos envolvesse de forma tão intensa. O desespero para ver o próximo episódio sempre quando o atual termina com uma revelação bombástica, uma frase desconsertante. Lost mudou nossa forma de ver TV. Não é mais uma atividade passiva, é dinamica, cheia de possibilidades, onde voce sente que faz parte de tudo aquilo. Ao final do seriado, corremos pra internet (na verdade em muitos casos apenas minimizamos o Media Player, pois já estamos no computador) para procurar pistas, comentários, repercussões, pra ver se alguém viu o que ninguem viu ou pra ver se alguem compartilha da mesma idéia maluca que voce teve ao ver o episódio.
Alienados ? Exagerados ? Eu sinceramente não me importo com o rótulo. Percebi que tem muita gente que passou a adorar falar mal do seriado só pra estar na contramão e se sentir “descolado”. Bobagem. Bobagem também chamar-nos de noveleiros da nova geração, porque existe uma diferença gritante no quesito qualitativo desta (e de muitas outras boas) serie ao comparado com as novelas. Sim, porque você não aprende nada com novela, a não ser que pode ser sexy trair a esposa, que gente rica não tem problema e só vive no calçadão ou na academia, que existem crianças superdotadas que dão pitaco no relacionamento dos pais e há alegria até na desgraça…utopias e contos de fadas que, mesmo que nossa série favorita também tenha, é inegável o valor cultural que ela nos proporcionou durante este tempo todo: a busca pelo saber, a vontade pelo conhecimento de assuntos que antes nos pareciam tão distantes. Pra se ter uma idéia, desde que comecei a assitir a série, comprei dois livros de Stephen Hawking, um de William Golding (O Senhor das Moscas) e ainda fui atrás do Catch 22 (nome de um episódio centrado no Desmond), além de procurar saber sobre Rousseau, Locke e Hume um pouco mais a fundo. Tudo isso despertado de forma natural ao ver os episódios, pois nunca ninguem disse que voce precisaria le-los para entender a série e mais do que isso, ninguém nunca garantiu que isso fosse acontecer. É simplesmente pela paixão que o fazemos e continuaremos fazendo mesmo depois que a série se for, pois todos já sabemos que muitas respostas não serão dadas diretamente, o que vai abrir espaço para um discussão que levará anos dominando a rodinha de conversas de quem gosta de uma boa consipiração.
Só temos certeza de uma coisa: nunca mais veremos coisa parecida.
Lembro-me que a última vez que me senti entusiasmado com algo assim foi enquanto esprava pelo final da trilogia Matrix. Adorei a filosofia do primeiro filme, sai do cinema com um nó no cérebro no segundo, esperando um desfecho fabuloso para a terceira parte. Ia almoçar com os amigos e não falávamos em outra coisa. Mas o fim veio e trouxe consigo uma decepção enorme, que creio que muitos compartilhem comigo, parece que “faltou algo”, fora algumas escolhas totalmente equivocadas por parte dos diretores. Mas agora é diferente, não há mais como se decepcionar, porque já está tudo ai, tudo já foi dito, já foi feito. O que vai acontecer no domingo será apenas consequencia das escolhas feitas e obviamente alguns vão gostar, outros não. Mas como eu disse, não importa, a série já tem o respeito e admiração de todos, e isso não tem mais como mudar.
E por mais mitológico que tudo isso pareça ser, por mais mistérios e monstros que tenhamos enfrentado, no fim percebemos o que faz a série tão bela: é tudo sobre pessoas. Pessoas e seus erros, suas escolhas, suas chances de redenção..asim como nós. Por isso nos identificamos tanto com um ou outro personagem, temos nossos preferidos e nossos odiados, e temos um elenco de primeira que só faz acentuar essas sensações. Ou vá me dizer que voces não amam odiar o Ben, porque no fundo voces até gostam dele ? Não acham o Desmond gente finíssima ? Não ficam esperando o próximo apelido que o Sawyer vai inventar ? Adoram o Hurley sem exceções ? E no final das contas ficam putíssimos com o Jack, mas depois pensam “esse é o cara” ? E do Locke, não tem nem o que dizer….me tornei fã de carteirinha de Sir Terry O´Quinn. Não houve apelação sexual, não houve bandas da moda com suas musiquinhas recicláveis (aliás, houve uma fantástica trilha sonora, que sinceramente falando me fez chorar em algumas cenas) e só rostinhos bonitos, houve uma história, uma lenda.
Enfim, comparo o mesmo impacto que os personagens de Star Wars causaram em sua primeira geração (e causam até hoje), há 30 anos atrás no que estamos passando hoje em dia. Todo mundo vai lembrar pra sempre e guardar com carinho. E se tratando de uma série isso vai mais longe ainda. Acho que muita gente, assim como eu, acaba fazendo uma relação de “onde eu estava x que temporada era”. Perguntei a muitos amigos e eles me contaram como começaram a assisti-la. Eu também consigo me lembrar de como comecei a acompanhar, do que estava rolando na minha vida durante a segunda temporada, dos períodos de expectativa entre uma temporada e outra, das reuniões que marcávamos em minha casa pra assistir aos season finales…enfim, são várias lembranças até chegarmos ao momento crucial em que nos encontramos e que nos traz uma pergunta: o que vai ser daqui pra frente ? Estamos tão acostumados com a série fazendo parte do nosso dia a dia que vai ser difícil encarar o fim. Mas como “tudo que tem um começo, tem um fim” (haha, essa roubei do Oráculo de Matrix) melhor terminar no auge, do que estender a série por mais inúmeras temporadas só pra ganhar dinheiro. Isso também faz toda a diferença: a honestidade com os fãs, de fazer algo coeso, planejado e não um caça-niquel.
Mas é isso. Senti vontade de deixar meu agradecimento a este marco da televisão, que por seis anos nos trouxe alegria e emoção em níveis soberbos. Bom series finale pra todo mundo. Curtam, cada um do seu jeito, à sua maneira.
O fim de Lost e de um pedacinho da minha vida
maio 23, 2010 por marcioarinelli
Belíssimo post!
Falou tudo! Melhor programa de televisão de todos os tempos!!!
Contagem regressiva para o último capitulo!!
Isso que eu chamo de nostalgia adiantada!
Meu caro companheiro !!!! Aqui estamos novamente … sem saber falamos da mesma coisa, em textos diferentes! O quanto LOST mudou nossas vidas…
Eu posso dizer que só de lembrar do fim começo a chorar. Essa semana foi foda. Fiquei sozinha pensando em tudo que os últimos 20 minutos significaram. As cenas, diálogos, cortes e a música… a perfeita trilha sonora de Lost.
Agora tudo se resume em “let go and move on”. ou como nosso querido Desmond dizia: See you in another life, brotha!
Deixei pra ler este texto qdo eu visse o ultimo capitulo. Vc falou tudo Ma, Lost foi bom pq foi humano…diria demasiado humano. Não houve a fantasia e apelo sexual como vc disse.
Chorei, sorri, tive raiva, fiquei indignada algumas vzs, tive muitas duvidas sobre muitas coisas, mas todas as respostas estavam ali, em sua ordem.
E o fim de todos nós será o mesmo deles..
Espero q qdo chegue a nossa vez Mazito, o nosso encontro seja tão harmonioso como o deles..=) ate lá, a vida continua..
grande beijo, Brotha!